...de "Uma estória ordinária".
Voltei ao salão essa semana só para acompanhar minha mãe. Um dia quente, eu me arrastando, vontade de fazer nada. Assim, ficar no salão, àquela hora tranquilo, sentada perto da porta, vendo a vida passar nos corredores do shopping e sem ter que conversar com ninguém me pareceu interessante possibilidade de recarga de bateria.
Folheei uma, duas revistas quando ele passou por mim e levei apenas um segundo para reconhecê-lo. Levava a mesma bolsinha de pano à tiracolo, as mesmas passadas até o fundo da loja, como a ver se tinha alguém lá; relanceio para as cabelereiras, todas ocupadas demais, cansadas demais também dele, que nem o notam; ele, que depois se senta numa cadeira próxima a minha, por alguns instantes antes de se levantar e sair, subir a escada rolante. Quinze minutos depois está de volta e repete a caminhada, se senta; dessa vez se detém mais tempo e se ocupa com as palavras-cruzadas do jornal, totalmente alheio ao meu olhar de esguelha - o qual observa que dobra o jornal, deixando-o lá com as palavras-cruzadas incompletas, e sai.
Não demoro muito mais - ele não retornou..-ainda.
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
sábado, 26 de dezembro de 2009
uma estória ordinária
Ele se senta numa das cadeiras de espera do salão de beleza. Fica ali observando e acumulando dentro de si uma tranquila inquietude que logo o faz levantar-se, dar uma volta ali mesmo no shopping. Para depois voltar, adentrar com intimidade o salão, relancear lá para cima, onde estão as manicures. Parece que aguarda alguém. Mas quando dá as costas, repetindo sua saída, percebo um suspiro impaciente de uma das cabelereiras. A que corta o meu cabelo ri, me dando a deixa para perguntar. O que foi? Ela tenta não rir, deixando claro que ri do senhorzinho que entra e sai, que passa por nós naquele mesmo instante. Quem é? Enquanto levanta meu cabelo e repica com profissionalismo as pontas molhadas, explica que ele faz isso o dia todo. Aquele vai e vem. Com pena dele, pondero que talvez não tenha nada pra fazer; que esteja platonicamente apaixonado por alguma das moças? A cabeleira ri, como a dizer "Deus nos livre", e depois diz: é um sem vergonha. A mulher dele às vezes vem aqui. Noutro dia cochichou uma indecência no ouvido da outra ali. Não percebe que o tempo dele já passou!?
E com cara de desgosto ou um sorriso debochado conta uma coisa e outra, fala de seu mau hálito, de seu "cheirinho", descolore a primeira imagem do senhorzinho decente e com tintas fortes termina, e me pergunto qual será o final dessa estória.
E com cara de desgosto ou um sorriso debochado conta uma coisa e outra, fala de seu mau hálito, de seu "cheirinho", descolore a primeira imagem do senhorzinho decente e com tintas fortes termina, e me pergunto qual será o final dessa estória.
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